sexta-feira, 7 de março de 2014

A morte de Sérgio Guerra

Artigo especial
O que a política brasileira perde com a morte de Sérgio Guerra
Christina Lemos

A morte precoce – 66 anos – do deputado Sérgio Guerra deixa um vazio significativo no PSDB e na política brasileira: o do oposicionista racional, que jamais se utilizou de armas pouco dignas, como a oratória oca e agressiva, hoje tão em voga, principalmente na tribuna do Senado. Jamais uma voz alterada, nunca uma palavra ríspida – Sérgio Guerra firmou um estilo em tudo coerente, do caminhar tranqüilo à verve pernambucana, afiada e inteligente.

Os pontos altos da carreira política de mais de trinta anos foram a passagem pelo senado - com participação importante em Comissões de Inquérito e no processo de votação - e a atuação na articulação partidária durante campanhas presidenciais. Acessível e cortês, nas entrevistas, mesmo nos momentos de crise, nunca se esquivou de assumir posição política, num destemor parecido com o de outro tucano, Mário Covas.
Ao final de cada resposta, a interjeição “hein?” – era o recurso que utilizava para a um só tempo conquistar a compreensão e concordância do entrevistador e ganhar tempo para encadear o raciocínio.
Oposicionista duro, mas nunca deselegante, Guerra pertence a uma geração de políticos que não encontram substitutos. Era mestre na arte da conciliação, sem contar com artifícios outros que não a própria habilidade, o argumento e o respeito no trato.
O perfil era perfeito para substituir Tasso Jereissati na presidência do partido, quando o cearense foi massacrado pela política regional e pela avassaladora força de Lula no Nordeste. Presidiu um partido complexo, sempre no limite do racha irreversível, sem jamais permitir que isso ocorresse.
Por isso mesmo sobreviveu a duas derrotas eleitorais de grande magnitude, a de Alckmin, em 2006, e a de Serra, em 2010, sem qualquer arranhão ético – numa época em que campanhas e governos resvalam para o caso de polícia e mandam seus líderes para presídios.
O PSDB e a política brasileira devem a Sérgio Guerra uma eleição limpa e justa, com debates sóbrios e que privilegiem o argumento construtivo. E um resultado que ele não testemunhará, mas terá ajudado a construir.

Jornalista.

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